Três modelos negros se destacaram entre os recordistas de desfiles da 61ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW), realizada de 13 a 18 de outubro, com 24 apresentações. O senegalês Mouhamed Diop, que concedeu entrevista exclusiva ao “Elas No Tapete Vermelho”, estreou na semana de moda brasileira com 10 apresentações. Já as modelos Emmy Neves, de São Paulo, e Anna Lumiar, de São Luís, no Maranhão, desfilaram 12 vezes cada uma.

A trajetória de Mouhamed até as passarelas começou longe do universo da moda. Depois de se mudar do Senegal para o Rio de Janeiro, em outubro de 2023, ele trabalhou por cerca de um ano e dois meses como vendedor ambulante na praia de Ipanema. Vendia carregadores portáteis e óculos de sol e foi nesse período que desenvolveu uma habilidade que hoje também faz parte de sua profissão: a comunicação com o público.
Em 2025, enquanto trabalhava na praia, Mouhamed foi descoberto pelo agente de modelos Cléber Machado, da JOY Management, agência dos empresários Liliana Gomes e Marcelo Fonseca, que representa nomes como Lais Ribeiro e Coco Rocha. A partir daí, começou a construir sua carreira na moda, participando de editoriais, campanhas e desfiles.
Entrevista com Mouhamed Diop

1. Qual foi a sensação de fazer 10 desfiles logo na sua estreia no SPFW?
Foi uma sensação indescritível. Antes mesmo do início da semana de moda, eu dizia aos meus amigos modelos que faria pelo menos 10 desfiles. Quando percebi que tinha alcançado essa meta, senti muita gratidão, felicidade e orgulho. Foi a prova de que acreditar em si mesmo é importante, mas também é preciso trabalhar duro e estar preparado para as oportunidades.
2. Você sentia nervosismo antes de entrar na passarela?
Acho que todo modelo sente alguma coisa antes de entrar na passarela, principalmente em um evento tão importante. Tento transformar o nervosismo em energia positiva. Gosto de compartilhar minha energia com os fotógrafos e as pessoas ao redor, mas, na hora de entrar, me concentro, respiro e penso: “Agora é a minha vez. Tenho que dar o meu melhor”.
3. O que passou pela sua cabeça antes do primeiro desfile?
Pensei em toda a minha trajetória e no que precisei superar para chegar até ali. Lembrei da minha família, das minhas origens, de Deus e das pessoas que acreditaram em mim. Aquele momento era muito maior do que simplesmente desfilar. Eu queria aproveitar cada segundo e mostrar que era capaz.

4. Você imaginava que se tornaria modelo?
Não. Quando era mais novo, não imaginava que um dia estaria nas passarelas de uma das principais semanas de moda do Brasil. Minha trajetória começou de uma maneira inesperada, longe de uma agência ou de uma escola de modelos. Por isso, valorizo ainda mais cada oportunidade que recebo.
5. O que pensou quando foi abordado na praia de Ipanema?
Foi uma surpresa. Eu estava trabalhando e tentando construir minha vida quando surgiu aquela oportunidade. Aos poucos, percebi que o encontro poderia abrir as portas de um mundo completamente diferente. Mas ser descoberto é apenas o começo. Depois disso, é preciso ter disciplina, aprender, trabalhar e continuar acreditando.

6. Qual foi a mudança mais significativa que a carreira de modelo trouxe para sua vida?
A maior mudança foi a possibilidade de enxergar um futuro diferente. A moda me permitiu conhecer pessoas, trabalhar com grandes profissionais e entrar em espaços que antes pareciam distantes da minha realidade. Acima de tudo, ajudou-me a acreditar ainda mais no meu potencial. Quero mostrar que o lugar de onde você vem não precisa determinar até onde pode chegar.
7. Há quanto tempo você está no Brasil e por que decidiu vir para cá?
Estou no Brasil desde outubro de 2023. Vim do Senegal em busca de oportunidades e da possibilidade de construir um futuro melhor. Quando cheguei, minha realidade era muito diferente. Comecei trabalhando na praia e precisei aprender a viver em um país novo, com outra língua e outra cultura. Hoje, quero crescer internacionalmente, trabalhar com grandes marcas e levar minha história cada vez mais longe, sem esquecer de onde vim e do que precisei superar para chegar até aqui.
Emmy Neves: mãe solo, modelo e trancista

Emmy Neves, de 26 anos, também se destacou na edição, com 12 desfiles. Nascida em São Paulo e representada pela agência Move Management, ela concilia a carreira de modelo com o trabalho de trancista e a maternidade solo.

Vinda da periferia, Emmy encontrou na moda uma maneira de transformar seus sonhos em realidade. Nesta edição do SPFW, a modelo ampliou sua experiência nas passarelas e segue construindo a carreira com participações em campanhas e comerciais. A modelo desfilou para À La Garçonne, Mercado Livre, Catarina Mina, Dario Mittmann, Santa Resistência, Amir Slama, Hisha, Aluf, Cria Costura, Foz, Ammi e Apartamento 03.

Em seu relato, ela destaca a importância da persistência e do apoio profissional para conquistar espaço no mercado. “Minha história representa a coragem de acreditar no meu potencial e de mostrar que nossas origens não definem até onde podemos chegar”, afirmou.
Anna Lumiar: 12 apresentações no SPFW

A modelo Anna Lumiar, de 22 anos, natural de São Luís, no Maranhão, também contabilizou 12 desfiles na edição. Representada pela Joy Management, ela já havia participado de outras temporadas do São Paulo Fashion Week.

De acordo com o Models.com, um de seus primeiros trabalhos em passarela foi para a Mondepars, em 2024. Anna também posou para editoriais da revista Vogue e do caderno Ela, do jornal O Globo.

Na 61ª edição do SPFW, a modelo desfilou para 12 marcas: Apartamento 03, Ammi, FOZ, Cria Costura, Uó Upcycling por Marcelo Sommer, Handred, Amir Slama, Dario Mittmann, Catarina Mina, Artemisi, Mercado Livre e Marina Bitu.
