Quando trabalhava em uma pizzaria, até o segundo semestre de 2025, Thalita Ferreira, 19 anos, foi surpreendida por uma pergunta que mudaria sua vida: “Por que você não tenta entrar nesse mundo da moda?”. O convite veio de Guilherme, dono do estabelecimento onde a modelo paulista trabalhava. A princípio, ela relutou. Afinal, nunca havia se imaginado diante das câmeras ou nas passarelas. Mas tomou coragem, aceitou a sugestão. Saiu da pizzaria em outubro, começou na moda no mesmo mês e, em seis meses, em março deste ano, abriu o desfile da Yves Saint Laurent. O primeiro de sua vida.

Depois, vieram – e continuam vindo – mais grifes: Schiaparelli, Loewe, Balenciaga, Celine, Stella McCartney, Fendi Haute Couture, Jacquemus, Emilio Pucci, Sacai, COS e AMI Paris, além da campanha de inverno 2026 da Chloé, fotografada pela dupla Inez & Vinoodh. Agora, vive outro momento importante da carreira: é uma das cinco modelos escolhidas para a edição de agosto da Vogue Brasil, representando uma nova geração de talentos brasileiros em destaque no mercado internacional.

Em entrevista exclusiva ao “Elas no Tapete Vermelho”, Thalita, que é agenciada da EVOL MGMT, relembra a descoberta na pizzaria, fala sobre a mudança de profissão, a reação da família, a rotina intensa durante as semanas de moda internacionais, a emoção antes de entrar na passarela e a chegada à capa da “Vogue Brasil“. “Se eu pudesse falar com aquela Thalita hoje, eu diria: “Parabéns, Thalita. Você conseguiu. Você está conseguindo”, disse a modelo. Confira a entrevista abaixo.
Elas No Tapete Vermelho: Quando você trabalhava na pizzaria, imaginava que aquele lugar poderia ser o começo da sua carreira como modelo?
Thalita Ferreira: Quando eu trabalhava em uma pizzaria, o Guilherme, que era o dono do lugar, me viu e me perguntou: “Por que você não tenta entrar nesse mundo da moda? Você tem muito perfil para isso”. Naquele momento, eu relutei um pouco, porque nunca tinha me imaginado como modelo. A ideia ficou na minha cabeça por alguns meses, até que um dia eu tomei coragem e falei para ele: “Gui, vamos tentar?”.
Foi aí que tudo começou. Ele cortou meu cabelo e me apresentou ao Jackson, que hoje é meu booker. A partir dessa conexão, conheci minha agência no Brasil e, aos poucos, as coisas começaram a acontecer.
Eu acho muito especial pensar que eu estava ali simplesmente trabalhando na pizzaria, fazendo pizzas, sem imaginar que aquilo poderia mudar completamente a minha vida. O Guilherme foi a pessoa que fez essa primeira ponte e acreditou em um potencial que eu mesma ainda não enxergava.
Elas No Tapete Vermelho: Como você não pensava em ser modelo, conta como encarou o mundo da moda e o que pensava em seguir como carreira?
Thalita Ferreira: Eu trabalhei a minha vida inteira, desde muito nova, principalmente com cozinha e em restaurantes. Minha mãe e grande parte da minha família trabalham com gastronomia, então cresci muito influenciada por esse universo e sempre achei que seguiria por esse caminho.
Ser modelo nunca foi um sonho que eu tive. Na verdade, eu cogitava praticamente qualquer coisa, menos moda. Eu achava o trabalho das modelos muito interessante, claro, mas não conseguia me imaginar fazendo aquilo. Por isso, quando entrei nesse universo, foi uma adaptação muito grande para mim.
No começo, precisei entender que a moda vai muito além do glamour que as pessoas enxergam de fora. Existe muito trabalho, disciplina, foco e uma necessidade enorme de estar sempre com os pés no chão. Foi um processo de me encontrar e entender qual era o meu espaço dentro desse mundo.
E acho curioso olhar para trás, porque hoje eu não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Sou completamente apaixonada pela vida que construí e, principalmente, pelo meu trabalho. Foi uma profissão que eu nunca planejei, mas que acabou se tornando uma parte enorme de quem eu sou.
Elas No Tapete Vermelho: Como seus pais e sua família reagiram quando você decidiu seguir a carreira de modelo?
Thalita Ferreira: Meus pais ficaram muito animados e a minha família sempre me apoiou muito. Acho que o único momento em que eles ficaram um pouco assustados foi quando comecei a viajar para fora do país sozinha, sem a minha família por perto e sem conhecer direito aquele universo.
Mas, ao mesmo tempo, eles sempre confiaram muito em mim. Eles conhecem a filha que têm e sabem que sempre fui muito corajosa, independente e até um pouco “doida” nesse sentido. Então, mesmo com as preocupações naturais de pais, eles sempre acreditaram que eu conseguiria me cuidar e enfrentar tudo o que viesse pela frente.
Desde o começo, eles torceram muito por mim. Ter esse apoio foi muito importante, principalmente nos momentos em que tudo era novo e eu ainda estava aprendendo a lidar com a intensidade da profissão. Saber que eu tinha a minha família comigo, mesmo estando fisicamente longe, me dava muita segurança.

Elas No Tapete Vermelho: Qual foi o momento em que você percebeu que poderia construir uma carreira internacional?
Thalita Ferreira: Por incrível que pareça, foi o meu desfile para a Yves Saint Laurent. Foi ali que eu realmente pensei: “Tá, eu tenho futuro nisso”.
Até aquele momento, eu ainda estava descobrindo o meu espaço dentro da moda e entendendo tudo o que aquela profissão significava para mim. Mas estar ali, em um desfile de uma maison tão importante, me fez perceber que aquilo poderia ser muito maior do que eu imaginava.
Foi um daqueles momentos em que você para por alguns segundos e pensa: “Isso está realmente acontecendo comigo”. Acho que foi quando comecei a enxergar, de verdade, a possibilidade de construir uma carreira internacional.
Elas No Tapete Vermelho: Como é sua rotina durante uma temporada internacional de moda?
Thalita Ferreira: Minha rotina durante uma temporada de moda internacional é um pouco maluca. É tudo muito intenso e acontece muito rápido. Eu acordo cedo, vou para um casting, depois para uma prova, saio de um desfile e já preciso correr para o próximo. Às vezes, é literalmente aquela situação de lavar o cabelo na pia do banheiro entre um compromisso e outro. É um caos organizado.
Também tento cuidar bastante da minha alimentação, porque muitas vezes não temos tempo nem para parar e fazer uma refeição com calma. Então, sempre que posso, me organizo antes e levo comida comigo. E o sono também acaba sendo um desafio — são dias em que dormimos muito pouco e estamos constantemente correndo de um lugar para outro.
Mas, apesar de todo esse cansaço e dessa loucura, eu amo a adrenalina. Gosto muito de viver tudo de uma maneira tão intensa. Durante as semanas de moda, sinto uma força muito grande dentro de mim. É um sentimento difícil de explicar, mas parece que eu fico ainda mais consciente da minha capacidade e de tudo o que consigo fazer.
E, de alguma forma, é um dos momentos em que eu mais me encontro como Thalita. É um lugar em que eu me sinto muito eu mesma. Acho que é justamente por isso que, mesmo com toda a correria, o cansaço e a pressão, eu amo tanto viver uma temporada de moda.

Elas No Tapete Vermelho: O que passa pela sua cabeça nos segundos antes de entrar na passarela? E existe alguma abertura que tenha sido mais especial?
Thalita Ferreira: Nos segundos antes de entrar na passarela, parece que o meu mundo fica em câmera lenta. É como se, por alguns instantes, tudo ao meu redor desaparecesse e eu conseguisse ouvir apenas a batida do meu próprio coração. E é justamente nesse momento que eu penso: “Caramba, como é bom viver isso”. É uma sensação muito difícil de explicar. Toda a ansiedade, o cansaço e a energia daqueles dias parecem se transformar naquele instante.
Então eu canalizo tudo para a passarela. É como se eu deixasse o corpo fazer o que precisa fazer e simplesmente fosse. Naquele momento, eu só consigo ouvir o meu coração — e é seguindo essa batida que eu entro.
Eu amei todas as aberturas que fiz até hoje. Cada uma teve um significado muito especial para mim, mas acho que Saint Laurent sempre vai ocupar um lugar diferente no meu coração. Foi o primeiro desfile da minha vida e, além disso, foi a minha primeira abertura. Então existe uma memória e uma emoção ali que são impossíveis de repetir. Foi naquele momento que eu estava vivendo algo que, pouco tempo antes, eu nem imaginava que seria possível para mim.
Elas No Tapete Vermelho: Como você faz para cuidar da cabeça e se desligar um pouco da intensidade da profissão?
Thalita Ferreira: Eu gosto muito de praticar os esportes que faço e sinto que, quando treino, consigo dar uma refrescada na cabeça e voltar para a rotina com outra energia. Faço de tudo um pouco, mas meu favorito do momento é o boxe e futebol. Também aprendi a importância de simplesmente parar. Às vezes, não preciso fazer nada extraordinário: gosto de colocar uma música, ficar um pouco comigo mesma ou sair com meus amigos. Esses momentos me ajudam a desligar um pouco da intensidade do trabalho e lembrar que existe uma vida além da moda.
Acho que manter esses pequenos espaços na rotina é o que me ajuda a continuar com os pés no chão. A temporada pode ser muito acelerada, mas eu tento não deixar que toda essa correria me faça esquecer de quem eu sou fora dela.
Elas No Tapete Vermelho: Qual foi o momento mais surpreendente da sua carreira até agora?
Thalita Ferreira: Graças a Deus, eu já vivi muitos momentos surpreendentes na minha carreira. Sinto que, a cada trabalho novo, existe sempre aquele momento de pensar: “Uau, meu Deus, eu não acredito que estou fazendo isso”.
Mas acho que o último momento em que senti isso de uma forma muito intensa, sem dúvidas, foi quando fiz a minha capa para a Vogue Brasil. Foi um daqueles momentos em que eu realmente precisei parar e absorver tudo o que estava acontecendo.
Olhar para aquela capa e pensar em toda a trajetória que me trouxe até ali foi muito especial. É uma conquista que eu ainda estou processando e que, para mim, representa muito mais do que simplesmente estar na capa de uma revista.

Elas No Tapete Vermelho: Como foi receber a notícia de que faria a capa da Vogue Brasil?
Thalita Ferreira: Quando recebi a notícia de que faria a Vogue Brasil, eu fiquei completamente doida. Foi um daqueles momentos em que você recebe uma notícia tão grande que simplesmente não consegue acreditar. Na época, eu estava trabalhando fora e tudo aconteceu muito rápido: fui de Paris para Madri, depois Barcelona no dia seguinte, para o Brasil para fazer a revista e logo depois de ter fotografado a revista, já estava de volta à Europa para trabalhar novamente.
Então a semana da capa foi muito intensa. Eu estava vivendo tantas coisas ao mesmo tempo, viajando, trabalhando e correndo de um lugar para outro, que nem tive tempo de realmente parar e entender o que estava acontecendo.
A ficha só caiu de verdade depois, quando vi um vídeo que minha família me mandou. Eles estavam recebendo e comprando a revista, emocionados e chorando. Foi vendo a reação deles que eu finalmente parei e pensei: “Caramba, é verdade. Eu fiz uma capa da Vogue”.
E acho que foi isso que tornou o momento ainda mais especial para mim. Porque aquela capa não era uma conquista só minha. Eu sabia o quanto a minha família tinha torcido por mim desde o começo, então ver a emoção deles fez com que tudo aquilo ganhasse um significado muito maior.

Elas No Tapete Vermelho: O que você diria hoje para a Thalita que trabalhava na pizzaria? E quais são seus próximos sonhos?
Thalita Ferreira: Essa pergunta me emociona, porque me faz voltar para um lugar muito importante da minha história. Quando penso na Thalita que trabalhava na pizzaria, lembro de uma menina que sempre trabalhou muito, desde muito nova, e que sempre correu atrás de mudar a própria realidade e, principalmente, a realidade da sua família.
Se eu pudesse falar com aquela Thalita hoje, eu diria: “Parabéns, Thalita. Você conseguiu. Você está conseguindo”.
Eu não diria que consegui tudo ainda, porque sei que existem muitos lugares onde ainda quero chegar e muitos sonhos que ainda quero realizar. Mas tenho muito orgulho da Thalitinha que fui e, principalmente, da mulher que estou me tornando. Olhar para tudo o que aconteceu em tão pouco tempo e perceber até onde cheguei é uma sensação muito especial.
Elas No Tapete Vermelho: E quais são seus próximos sonhos?
Thalita Ferreira: Profissionalmente, ainda tenho muitos sonhos. Quero conquistar muitas outras capas de revista, conhecer novos lugares, trabalhar com grandes nomes da moda e continuar construindo uma carreira da qual eu possa me orgulhar.
Mas existe também um sonho da Thalita que vai muito além da profissão. Eu quero ter uma família, construir uma vida tranquila, ter estabilidade e preservar essa paz que, para mim, é tão importante. No fundo, me imagino vivendo de frente para o mar, cercada pelas pessoas que amo e podendo olhar para tudo o que construí com a sensação de que valeu a pena.
Acho que esse é o meu maior sonho: continuar crescendo sem perder a minha essência e, quando olhar para trás novamente, poder dizer para a Thalitinha: “Você conseguiu. E ainda tem muito mais por vir”.
