Chuteira rosa, bolsa de grife, uniforme com estampa de oncinha: Copa do Mundo prova que códigos masculinos podem e devem ser quebrados

Os cortes de cabelo eram, até as últimas Copas do Mundo, a principal linguagem estética dos jogadores dentro de campo. Afinal, todos precisavam usar o uniforme da seleção que defendiam. Pois bem, neste Mundial disputado em Canadá, Estados Unidos e México, o foco saiu das cabeças e foi para os pés. As chuteiras cor-de-rosa estão entre os assuntos mais comentados desde a partida de abertura, entre México e África do Sul. Além disso, outros itens exibidos fora dos gramados desta Copa do Mundo pelos atletas também chamaram atenção, como uniformes sociais com estampa de leopardo e malas de viagem de grifes de luxo.

Chuteiras dos jogadores Seleção Brasileira (Fotos: Rafael Ribeiro e Nelson Terme/CBF/Reprodução/Instagram)
Chuteiras dos jogadores Seleção Brasileira (Fotos: Rafael Ribeiro e Nelson Terme/CBF/Reprodução/Instagram)

Talvez estejamos vivendo uma discreta, mas significativa, revolução de costumes. Estamos falando do futebol masculino, um ambiente historicamente mais resistente a mudanças. Claro que bolsas de grife não são acessíveis à maioria das pessoas devido aos altos preços, mas o que se observa é a incorporação de acessórios, estampas, cores e modelos tradicionalmente mais associados aos códigos femininos de vestuário.

Chuteiras rosa

Marcas como Nike, Adidas, New Balance e Puma apostaram no rosa para suas chuteiras. Um dos motivos apontados é o destaque que a cor proporciona sobre o gramado. Afinal, rosa e verde são cores complementares no círculo cromático. Não foi coincidência que as quatro empresas tenham investido na tonalidade. Trata-se de uma escolha estudada e nada aleatória. Lembrando que os jogadores são obrigados a usar o uniforme da patrocinadora de cada seleção, já as chuteiras sõa liberadas para patrocinadores individuais  de cada jogador. Neymar, por exemplo, tem contrato com a Puma; Raphinha com a Adidas e Vini Jr. com a Nike.

Odinga Nimako, integrante da equipe global de desenvolvimento de chuteiras da Nike, afirmou ao jornal The Athletic, publicação esportiva ligada ao New York Times, que a escolha está relacionada à crescente procura de atletas e consumidores por cores mais ousadas. Na página da marca no Brasil, há mais de 100 opções de chuteiras. O modelo Nike Phantom 6 Elite High é o mais caro, custando R$ 2,5 mil. O produto conta com cabedal equipado com a tecnologia Gripknit — material texturizado e aderente que melhora o toque na bola — e versões sem cadarço.

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O mesmo valor é cobrado pela chuteira F50 Hyperfast Elite Laceless, da Adidas. Já os modelos rosa da Puma custam em torno de R$ 1,8 mil, como a Ultra 6 Carbon, que apresenta degradê em rosa e laranja. Na New Balance, a Tekela Elite Low FG V5 Unisex sai por cerca de R$ 2 mil.

Nem todos os jogadores aderiram à tendência. Na estreia da Argentina contra a Argélia, por exemplo, Lionel Messi deve entrar em campo usando uma chuteira azul e branca da Adidas, de design minimalista.

Pode ser uma estratégia de marketing, seja para despertar desejo de compra, seja para destacar os atletas sobre a grama verde. Mas a escolha do rosa por jogadores de futebol talvez transmita uma mensagem mais ampla para os garotos que veem nesses atletas seus ídolos: a de que cores não precisam estar associadas a um gênero específico. Em um ambiente tradicionalmente marcado por códigos estéticos mais rígidos, a popularização de chuteiras rosas sugere uma flexibilização dessas convenções.

Estampa de leopardo

A seleção da República Democrática do Congo também chamou atenção. Seus uniformes sociais e bolsas de viagem trazem estampa de leopardo — ou de oncinha, como é popularmente chamada no Brasil. Não por acaso: os próprios jogadores são conhecidos como Les Léopards (Os Leopardos), animal símbolo do país e presente até em seu brasão nacional.

Sob o olhar ocidental, a animal print costuma ser associada ao guarda-roupa feminino. No Congo, porém, a referência tem um significado cultural muito mais profundo. A estampa ganhou destaque nos uniformes usados fora de campo, criados pelo estilista Alvin Jmak.

Em suas redes sociais, o designer escreveu: “Elegância é uma forma de vestir a sua história”. As peças foram inspiradas na herança cultural congolesa e concebidas como uma homenagem à seleção de 1974, quando o país, então chamado Zaire, disputou sua primeira Copa do Mundo.

 

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Segundo Jmak, fundador da marca JMAKxPARIS, a coleção celebra “aqueles que ousam sonhar mais alto e representam com orgulho sua nação”. O resultado é uma combinação de moda, identidade nacional e memória histórica.

Bolsas de viagem

Se os jogadores congoleses viajaram com bolsas de estampa animal, outros atletas têm exibido modelos de grifes internacionais como bagagem de mão. A revista britânica GQ publicou recentemente uma reportagem destacando marcas e modelos usados pelos jogadores durante o deslocamento para os países-sede ou exibidos em publicações nas redes sociais.Chanel, Louis Vuitton, Bottega Veneta, Hermès e Goyard estão entre as grifes mais vistas.

 

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“Neste verão, Lamine Yamal está pressionando os clientes mais desavisados — e aparentemente a própria Chanel — a produzir peças masculinas de qualidade. Sua Chanel Shopping Bag, de £ 6.690 (cerca de R$ 46 mil), é ótima. Mas combiná-la com um blazer texturizado da mesma cor a torna ainda melhor”, escreveu Marcus Mitropoulos, autor da reportagem.

O jornalista também destacou a escolha do alemão Maximilian Beier. “Se você vai para sua primeira Copa do Mundo, é melhor estar preparado. Felizmente, Maximilian Beier fez exatamente isso com a Goyard Boston 50, que custa £ 3.040 (aproximadamente R$ 20,7 mil).” A peça traz o tradicional monograma em padrão chevron da marca francesa.

 

Quem também já foi visto com uma bolsa Goyard é o holandês Memphis Depay, atacante do Corinthians.

Historicamente, as bolsas fazem parte da indumentária humana há séculos. Com o tempo, passaram a ser associadas principalmente ao universo feminino. Homens que carregavam bolsas até pouco tempo atrás muitas vezes eram vistos com estranheza. Ao naturalizar esses acessórios no futebol, os jogadores parecem marcar mais um gol fora de campo. Que assim seja.

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