“A cirurgia não me tornou mais ou menos mulher”, diz Carol Marra

"É preciso assumir nossa verdade, seja ela qual for", afirmou a atriz e jornalista em live

Rosângela Espinossi
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Carol Marra (Foto: Divulgação)

Carol Marra (Foto: Divulgação)

Carol Marra é atriz, modelo e jornalista, 40 anos, e tem uma verdade que assumiu sem medo. Nasceu com corpo de homem, mas sempre se viu como mulher. Por isso, adotou o nome de Ana Carolina Marra há tempos e conseguiu, inclusive, ter em seu RG o sexo como feminino, e não feminino trans, como costuma acontecer. “Isso abriu até jurisprudência”, conta ela, que fez cirurgia de redesignação sexual em 2017. “A cirurgia não me torna mais ou menos mulher. Quis apenas ficar confortável com meu corpo”, disse ela durante live no perfil do Instagram do “Elas no Tapete Vermelho.”

Depois de uma carreira de sucesso como modelo, há seis anos focou na profissão de atriz, apesar de ainda fazer alguns desfiles. Mas a pandemia interrompeu alguns projetos para 2020. Entre eles, está o monólogo “A Mulher que Virou uma ONG“, com texto de de Leila Ferreira e direção de Jorge Farjalla, que estava em fase de captação de recursos. Outro projeto adiado são das gravações do filme “Odara”, da diretora Ana Cavazzana, em Portugal, com Ricardo Pereira, Maria Fernanda Cândida e Silverio Pereira . Fez, no entanto, participação especial no sitcom “Dra Darci”, de Tom Cavalcante, que estrou em maio no Multishow, em que faz a hipnóloga Gardenia Passos.

 

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Sem papas na língua, ela conta que não traz nenhuma amizade de infância, porque não era aceita nem no grupo das meninas, nem dos meninos. “Era sempre a bichinha, a mulherzinha. E era muito tímida, mas sempre fui alegre”, afirma. “E quando digo sobre assumir sua verdade, seja ela qual for, não me refiro apenas à condição sexual, mas a qualquer particularidade que a pessoa tenha. Seja, magra, gorda, preta, com algum defeito, cabelo liso ou não. É um processo libertador”, aconselha.

Confira trechos da live abaixo e, no link, no fim da matéria, acesse a live completa.

Quarentena

Tinha o hábito de fazer a unha toda semana, mas manicure em São Paulo é caro. Agora faço a cada duas semanas. Descobri também que é fácil pintar raiz, para cobrir os cabelos brancos. E a gente mesmo pode fazer. A quarentena fez a gente perceber que é gostoso fazer essas coisas. Mesmo cozinhar, eu não gostava de fazer sempre. Mas é gostoso cozinhar pra gente, curtir a casa. Ataquei até de arquiteta e fiz uma reforma no meu apartamento e no da minha vizinha de porta, a Antonia Fontenelle, que.ainda nem viu como ficou o apartamento dela de São Paulo, porque ela mora no Rio.”

 

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Carreira de modelo

“Nunca quis ser modelo, mas aconteceu. Nunca tinha me visto na frente de uma câmera. Fiz jornalismo e fui produtora de moda, de capa de revista, cuidando de cada detalhe da foto. Sou modelo e quero lembrar que modelo é quem faz desfile, foto, coloca o book embaixo do braço e vai atrás de trabalho. Tem gente que coloca nas redes que é modelo, mas na verdade, é prostituta. Nada contra ser prostituta, mas uma coisa é diferente da outra. Comecei como modelo fazendo produção de moda. O Giovanni Frasson (consultor criativo) me viu e me apresentou ao Alexandre Herchcovitch e aí comecei a desfilar.”

Subindo no salto

No primeiro desfile, eu não sabia nem andar de salto alto. Para mim, era uma grande diversão. Nos primeiros, era oba oba. Não estava nem aí. Conhecia as atrizes, as modelos. Isabeli Fontana, Vivi Orth eram minhas deusas. Eu as vestia para os desfiles e para fatos. De repente estava abrindo os desfiles. A modelo que abre e a que fecha é peça-chave. Depois, recebi convite para participar da série “Psi”, (da HBO, em 2014). E lá  vi que era o que queria mesmo. Focar na carreira de atriz.”

Timidez

“Eu era muito tímida, um bicho do mato, quando não era Carol, apesar de a Carol sempre estava adormecida lá dentro. Mas, a partir do momento que eu assumi minha verdade, eu fiquei muito segura. Não aceito menos do que mereço. E acho que essa segurança me deixou mais fortalecida, não empoderada, porque não gosto dessa palavra, mas deu mais segurança.”

A partir do momento que eu assumi minha verdade, eu fiquei muito segura. Não aceito menos do que mereço.

 

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Infância

“Sempre fui alegre, mas era muito tímida. Eu não trouxe amigos de infância, porque naquela época eu era bichinha, mulherzinha, Naquela época não se falava em bullying. 35 anos atrás, não existia nem a sigla GLS. Ser trans naquela época era quase um ET. Eu sempre fui uma menina, gostava de brincadeiras de menina. E na escola, por não poder brincar com as meninas nem com os meninos, não era aceita. Tive uma infância muito solitária, mas isso não me deixou uma pessoa amarga, triste. Não tenho trauma. Desenvolvi uma força interior desde criança para ter uma base sólida e construir minha personalidade. E minha família sempre me aceitou.”

Tolerância e preconceito

“O mundo hoje está mais tolerante. A gente debate mais os assuntos, a internet veio para ajudar, porque a gente pesquisa tudo lá. Mas tem também o lado ruim, porque as redes sociais deram voz a muita gente que se acha o dono da verdade. Todo mundo fica com sua metralhadora apontando. Eu não vou dizer que nunca sofri preconceito porque estaria mentindo, mas sempre foi uma coisa branda. Eu nunca entrei num lugar e vi gente se cutucando, fazendo comentários. Mas isso vem muito da minha segurança, da minha postura, da forma que eu me porto, que eu me visto, que eu falo.”

 

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Respeito

“Não adianta chegar com uma roupa com seio pulando para fora, com saia desse ‘tamanhozinho’… Cada um tem o direito de se vestir como quer. Mas o fato de ser trans, infelizmente, as pessoas te ligam à marginalidade, à prostituição. E isso é muito triste. Muitas trans estão se prostituindo não porque é bacana, mas porque não foi dada oportunidade de ter uma profissão e um trabalho digna. Então, as pessoas nivelam todo mundo por isso. Por eu nunca ter me portado dessa forma, talvez eu não tenha sentido preconceito tão forte. Mas óbvio que já sofri situações constrangedoras. Aqui o preconceito é mais forte que lá fora, mas depende do lugar, depende da sua conduta. O respeito é você que impõe.”

Assuma sua verdade, seja ela qual for. A vida fica leve. É um processo libertador

 

Adoção

“Já pensei em congelar o sêmen antes de fazer a cirurgia de redesignação sexual, mas não congelei. Tenho ideia de adotar uma criança e se isso acontecer, será daqui. Não quero pegar da África, porque está na modinha para ganhar like nas redes sociais. Quem faz o bem, de coração, não divulga. Não pode ser maior do que a ação.”

Consumismo x ação solidária

“Já cheguei a comprar dois sapatos iguais e só percebi quando fui guardar o segundo que tinha comprado. Foram tantos anos que queria ter um sapato, uma bolsa, um vestido, porque eu via minha irmã usando, que quando assumi minha verdade, quis ter muito de tudo. Hoje minha sapateira, que nem é muito grande, é cheia. Parece coisa de gente louca. Estou tentando deixar de ser muito consumista. Estou tentando desapegar. Por isso, vou fazer um bazar, com coisas minhas e de algumas amigas, pelo Instagram,  cuja parte da renda vai ser revertida, vai para três instituições, uma delas que atende meninas em situação de vulnerabilidade.”

 

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Cirurgia

“A cirurgia não me torna mais ou menos mulher. Vou dar um exemplo. O Tamy, filho da Gretchen, não tem como ter um órgão genital masculino, mas isso não o torna menos ou mais homem. Tem tanto homem que tem um pênis e não se porta como um homem. Tem tanta mulher que tem vagina, mas não se porta como uma mulher, ou não se vê como uma mulher. Não é órgão genital que define o sexo da pessoa. Mas eu precisava (fazer a cirurgia) para me sentir uma mulher plena. Quando pude tomar banho, depois da cirurgia, olhei para baixo e era a mesma pessoa. Já tinha absorvido uma realidade antes mesmo de vivenciá-la. Foi mais uma questão de conforto minha com meu corpo. Tenho amigas que não fizeram cirurgia e são tão ou mais mulheres que eu, que você. Fiz para ter uma relação saudável com seu corpo. É muito chato olhar para seu corpo é não se reconhecer. Ter que vestir uma roupa com preocupação em relação aos outros.”

Mudanças no corpo

“Eu não cuido muito da minha pele. Gosto de maquiagem, mas tenho uma péssimo hábito. Se a maquiagem está bonita, eu não tiro. Durmo com ela para aproveitar no dia seguinte. Mas do corpo eu cuido. Tento fazer dieta, mas não me privo de nada. No dia a dia, tento comer saudável. Eu gosto de puxar ferro. Infelizmente, a gente vai ficando velha e a pele perde o tônus, a musculatura vai definhando. É necessário fazer musculação, porque a gente vai ficando flácida, vai caindo. Antes, eu podia comer um pão, uma pizza, que não sentia nada, porque tinha testosterona. Agora faço reposição com progesterona e estrogênio. Agora como um pão e ele nasce na bochecha, na cintura e no culote. Eu sempre usei manequim 36, mas depois da operação cheguei a 42, 44, por causa do hormônio. As mulheres têm essa dificuldade de emagrecer por causa do hormônio. Consigo sentir isso na pele. Tenho até aquelas ondas de calor, é impressionante. Não tenho TPM graças a Deus.”

 

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Carteira falsa

“Eu usava antes documentos falsos, porque preferia ser presa por falsidade ideológica, do que ter um documento que não condizia com minha realidade. Hoje, eu consegui trocar tudo. A trans, quando opera, tem o direito de trocar o gênero, depois de passar por uma avaliação de um médico. Ele coloca: feminino trans. O meu foi o primeiro caso de ser apenas feminino, e abriu-se até uma jurisdição.”

Segregação

“Eu detesto essa coisa de segregar, colocar tudo numa caixinha, fazemos todos parte de um todo. Todo mundo paga imposto, todo mundo é igual, todo mundo vai pro mesmo lugar. A pandemia está ai, o vírus está ai para mostrar que vivemos todos numa grande teia, um depende do outro. Falta muito amor e respeito. As pessoas têm que respeitar, se amar. Não precisa se gostar, mas se respeitar.”

Publicidade com trans

“Teve uma evolução (o fato de ter mais diversidade nas campanhas publicitárias), mas vejo isso como modinha. Amigos publicitários me dizem que precisam fazer filmes publicitários (com elenco diverso) para a empresa tenha uma imagem boa junto ao público consumidor.  É preciso ter um negro, homossexual, trans. Dinheiro não se escolhe, pode ser de negro, de trans etc, mas na hora de fazer a propaganda, tem que colocá-los apenas por uma questão de marketing. Não sei até que ponto é uma questão genuína de inclusão e percepção ou se é uma grande estratégia para ser revertida em vendas e em dinheiro.”

Business

“Desfile é um grande show, já fiz vários, inclusive fora do Brasil, mas a campanha publicitária, impressas nas revistas, outdoor até banner da loja, isso é business. E nunca fiz grandes campanhas para business, porque não queriam associar a uma mulher trans. Mas como assim não associar seu produto a um trans? Trans consome tudo o que uma mulher consome. Calcinha, sutiã, roupa, maquiagem. Se bobear, até mais. A vontade de ser mulher é tão grande, que vai comprar mais que uma mulher cis. Eu costumo dizer que trans é uma mulher ao cubo.”

Carol Marra (Foto: Divulgação)

Carol Marra (Foto: Divulgação)

Leveza

“Vivo a vida com muita leveza. Deus foi misericordioso comigo. Permitiu que eu escrevesse uma parte de minha história. Se tenho um problema, preciso buscar a solução, não problematizar ainda mais. Falta leveza às pessoas, estão muito pesadas. É preciso ser positivo, ter sorriso no rosto. Quando a gente tem vontade de alguma coisa, não vê desafios. Quando você quer alguma coisa, tem que correr atrás, porque o ‘não’ você já tem.”.

Invisíveis

“Eu tive afeto e corri atrás de minhas vontades. Muitas trans não têm o afeto da família, são vistas como um pedaço de carne, ou são invisíveis. Muitas vezes, apenas um abraço , mostrar que é querida, amada já faz muita diferença. Não acho que se prostituir seja um crime, seja errado. Fazem isso porque não tiveram a oportunidade de fazer outras coisas, mas é injusto. Todas são mulheres batalhadoras. Conheço médicas, delegadas, advogadas trans. Viva a diversidade da vida. Se é uma pessoa integra e correta, qual o problema de ter um oportunidade?”

Nossa verdade

“A gente tem que assumir a sua verdade. Se está acima do peso, se tem vitiligo, se tem problema na perna. Seja um defeito ou uma qualidade. Vamos assumir o nosso eu, se aceitar como a gente é. .Assuma sua verdade, seja ela qual for, a vida fica leve. É um processo libertador.”

Veja íntegra da live

 

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Veja a Live completa com @carolmarrareal e @roespinossi. “Cada um tem que assumir sua verdade”, disse Carol.

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