Pretinho básico de Chanel faz 100 anos: de Bonequinha de Luxo à vingança de Lady Di, os vestidos pretos que marcaram a história

Uma das peças básicas mais importantes do guarda-roupa feminino, o pretinho básico criado por Coco Chanel completa 100 anos neste mês. Em outubro de 1926, a revista Vogue publicou o desenho de um vestido preto da estilista, com comprimento até os joelhos, detalhe blusê na cintura baixa e um leve desenho em V na parte superior e na saia. A publicação comparou a criação ao Ford T, o automóvel produzido em série por Henry Ford que ajudou a popularizar o carro, e chamou o modelo de “Ford da Chanel”.

Pretinho básico desenhado por Chanel em 1926 (Foto: Reprodução)
Pretinho básico desenhado por Chanel em 1926 (Foto: Reprodução)

Estava criado o little black dress, ou petite robe noire, como é conhecido em francês, o nosso pretinho básico. Uma revolução para a época. Afinal, segundo o professor e historiador de moda João Braga, o preto era associado, desde o Renascimento, ao luto na monarquia espanhola. No século 19, a cor se disseminou pela Europa também por influência da rainha Vitória, que permaneceu 64 anos no trono e passou a usar roupas pretas após a morte do marido, o príncipe Albert, em 1861.

Pretinho básico desenhado por Chanel em 1926 (Foto: Reprodução)
Pretinho básico desenhado por Chanel em 1926 (Foto: Reprodução)

Chanel, que passou parte da infância em um orfanato administrado por freiras, conheceu de perto as regras austeras que faziam parte da rotina das meninas. Segundo relatos sobre sua trajetória, essa experiência teria influenciado sua relação com a cor preta, que ela ajudou a transformar em símbolo de elegância e modernidade.

Coco Chanel de vestido preto e pérolas (Foto: Reprodução)
Coco Chanel de vestido preto e pérolas (Foto: Reprodução)

Outra possível influência pessoal pode ter sido a morte de seu grande amor, o inglês Boy Capel, em um acidente de carro, em 1919. “Ela disse que ia colocar todas as mulheres do mundo usando preto. E conseguiu”, afirmou o professor de moda João Braga ao “Elas no Tapete Vermelho”.  E a própria Chanel fez muito uso de looks da cor, como na mostra a foto acima.

Audrey Hepburn em "Bonequinha de Luxo" (Foto: Reprodução)
Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo” (Foto: Reprodução)

De lá para cá, o pretinho básico nunca mais saiu de moda. Mas Chanel não foi a única responsável por popularizar a peça. O vestido preto criado por Hubert de Givenchy para Audrey Hepburn usar no filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961) também foi fundamental para consolidar o modelo como ícone de elegância. De silhueta ajustada, combinado com joias e luvas, o vestido usado pela personagem Holly Golightly tornou-se uma das imagens mais marcantes da moda dos anos 1960.

Pretinhos polêmicos

Virginie Gautreau, a Madame X, retratada por John Singer Sargent em 188 (Foto: Reprodução)
Virginie Gautreau, a Madame X, retratada por John Singer Sargent em 188 (Foto: Reprodução)

Muito antes de Chanel criar seu modelo, um vestido preto já havia provocado controvérsia na França. Em 1884, a socialite Virginie Gautreau, conhecida como Madame X, foi retratada em tamanho real pelo pintor John Singer Sargent. O vestido preto tinha decote profundo e alças finas, uma delas originalmente pintada escorregando pelo ombro. A obra causou escândalo quando foi apresentada no Salão de Paris daquele ano. A repercussão foi tão negativa que o pintor alterou a posição da alça no quadro.

Em 1994, 110 anos depois da apresentação do retrato de Madame X, outro vestido preto entrou para a história da moda. Em 29 de junho, a princesa Diana compareceu a um evento na Serpentine Gallery, em Londres, com um modelo de decote ombro a ombro e gargantilha de pérolas e safiras. Criado pela estilista grega radicada na Inglaterra Christina Stambolian, o vestido ficou conhecido como “vestido da vingança”. Na mesma noite, foi ao ar uma entrevista televisiva em que o então príncipe Charles falou publicamente sobre a infidelidade durante o casamento com Diana, confirmando o que já era alvo de especulações.

Diana havia recusado inicialmente o convite para o evento, mas mudou de ideia e apareceu com uma produção incomum para os padrões da realeza da época: um vestido preto, curto, justo e com decote pronunciado. O look chamou a atenção da imprensa e passou a simbolizar uma nova fase de sua imagem pública. Mais uma vez, um vestido preto mostrou que podia ir muito além de uma peça básica. A peça será leiloada pela Sothebys, em dezembro deste ano, com com valor estimado entre US$ 150 mil e US$ 300 mil.

Pretos rebeldes

Nos anos 1980, o preto ganhou outra dimensão nas passarelas de Paris com a chegada da vanguarda japonesa. Rei Kawakubo, à frente da Comme des Garçons, e Yohji Yamamoto surpreenderam o mundo da moda com roupas predominantemente pretas, modelagens amplas, assimetrias, tecidos desgastados e peças com cortes e furos. Issey Miyake também teve papel importante na renovação da moda japonesa no cenário internacional. Em contraste com as cores vibrantes e as silhuetas marcadas que dominavam parte da moda da época, essas criações propunham uma nova relação entre o corpo e a roupa. O preto deixou de ser apenas sinônimo de elegância para se tornar também uma declaração estética de ruptura com os padrões estabelecidos.

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