Valentino deixa elegância, feminilidade e o vermelho como legados

O criador italiano morreu nesta segunda-feira (19), aos 93 anos, deixando como legado um dos capítulos mais sofisticados da história da moda internacional — aquele em que elegância, disciplina e romantismo caminharam lado a lado por mais de seis décadas. Fundador da maison que leva seu nome, Valentino construiu um império baseado em silhuetas impecáveis, bordados preciosos e uma visão muito particular de feminilidade. Sua moda nunca gritou. Seduziu. Nunca correu atrás do tempo. Criou o seu próprio.

Naomi Cambpell, Valentino e Gisele no último desfile de alta-cosutura do estilista em 2008 (Foto: Reprodução/Instagram/@realmvalentino)
Naomi Cambpell, Valentino e Gisele no último desfile de alta-cosutura do estilista em 2008 (Foto: Reprodução/Instagram/@realmvalentino)

“Sem inovar, seu estilo, apoiando-se numa bela técnica da roupa sob medida, excede-se na valorização de uma sensualidade que ainda hoje exala todo o perfume da dolce vita”, escreveu François Baudot, autor do livro Moda do Século, publicado em 1999.

O nascimento do vermelho Valentino

Poucos estilistas conseguiram transformar uma cor em identidade e serem imediatamente associados a ela sempre que surgia. Ao lado de Chanel (preto), Schiaparelli (rosa-choque), Courrèges (branco) e Armani (bege e cinza), Valentino Garavani teve no vermelho sua cor-símbolo, segundo o professor de moda João Braga.

A tonalidade surgiu ainda no início da carreira, no fim dos anos 1950, quando Valentino apresentou um vestido vibrante, batizado de Fiesta, que se destacava entre tons neutros e pastéis tão comuns à época.

Não demorou para o tom se tornar assinatura. Valentino fez do vermelho um símbolo de poder, desejo e presença. Em suas próprias palavras, era uma cor que “faz a mulher entrar no ambiente antes mesmo de dizer qualquer coisa”.

A intensidade daquele vermelho — nem aberto demais, nem fechado — chamou atenção imediatamente e passou a ser repetida, coleção após coleção. O impacto foi tão forte que a Pantone batizou a mistura de 100% magenta, 100% amarelo e 10% preto de Red Valentino, uma tonalidade que remete à papoula.

Um pilar da moda italiana

Formado em Paris, onde trabalhou com grandes nomes da alta-costura, Valentino voltou à Itália decidido a criar algo que unisse o rigor francês à sensualidade italiana. Fundou sua maison em Roma, em 1959, ao lado de Giancarlo Giammetti, parceiro fundamental na construção da marca e em sua projeção internacional.

Valentino foi um dos responsáveis por colocar a moda italiana no mesmo patamar da francesa, levando Roma para o centro do mapa fashion. Sua estética refinada conquistou editoras, compradores e mulheres que buscavam roupas atemporais — feitas para atravessar anos, não estações.

O estilista das estrelas

Valentino entendeu o poder do tapete vermelho antes mesmo de ele se tornar um fenômeno midiático. Suas criações vestiram algumas das mulheres mais fotografadas do século 20 e do início do século 21.

Jackie Kennedy Onassis foi uma de suas clientes mais fiéis e ajudou a consolidar sua imagem junto à elite internacional. Audrey Hepburn, Brigitte Bardot, Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Lady Di e, mais tarde, Julia Roberts, Gwyneth Paltrow e Sharon Stone, Anne Hathaway transformaram seus vestidos em momentos históricos do cinema e da moda.

Valentino sabia como ninguém criar roupas que funcionavam sob os holofotes: tecidos que se moviam com elegância, cortes que favoreciam o corpo e uma aura de glamour que dispensava excessos.

A despedida das passarelas

Em 2007, o estilista anunciou sua aposentadoria. No ano seguinte, apresentou seu último desfile de alta-costura em Paris — um encerramento emocionante, marcado por vestidos etéreos, muitos deles em variações do vermelho que eternizou seu nome.

A partir dali, a criação da grife passou para Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli, que deram continuidade ao legado com respeito e contemporaneidade. Anos depois, Piccioli assumiu sozinho a direção criativa e permaneceu no comando até 2024.

Desde então, a Valentino vive uma nova fase sob a direção de Alessandro Michele, que assumiu a criação da maison trazendo uma leitura mais maximalista e autoral, dialogando com o passado sem se prender a ele. O estilista, egresso da Gucci, não poupou referências ao trabalho de Valentino desde a primeira coleção Resort, lançada de forma digital em junho de 2024, passando pelo prêt-à-porter em setembro, em Paris, até a estreia na alta-costura, em janeiro de 2025. De acordo com a revista Bazaar, o primeiro look de Michele no desfile em Paris, há um ano, com inspiração circense, levou 13 mil horas para ser concluído.

Vestidos e modelos que entraram para a história

Além do vermelho, Valentino ficou conhecido por vestidos de noite esculturais, rendas delicadas, laços dramáticos e uma alfaiataria precisa, especialmente em peças brancas — outra de suas obsessões estéticas.

Suas passarelas reuniram algumas das modelos mais icônicas da moda, como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Claudia Schiffer, Gisele Bündchen, entre tantas outras que ajudaram a traduzir sua visão de mulher: forte, elegante e absolutamente segura de si.

Um legado que não se apaga

Com a morte de Valentino Garavani, a moda se despede de um de seus últimos grandes mestres clássicos. Um criador que acreditava no tempo, no feito à mão, na beleza que não depende de tendências. “Seu poder estético, as influências que trouxe para a moda e a maestria ao criar roupas o consagraram como o grande imperador da moda. Seu legado continuará inspirando”, escreveu o consultor de moda Arlindo Grund em suas redes sociais.

O vermelho permanece. Os vestidos permanecem. E a certeza de que, sempre que uma mulher cruza um tapete vermelho com elegância silenciosa, há um pouco de Valentino ali. As redes sociais da Maison Valentino resumiram assim seu legado: “Sua vida foi um farol na busca constante pela beleza e, guiados por essa mesma beleza, continuaremos a honrá-lo com nossa mais profunda devoção. Seu estilo único e elegância inata permanecerão para sempre”. Que assim seja.

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